superação

O Homem que a FENG-UEM Nunca Parou para Conhecer

Há mais de 20 anos que o Mário lava carros na FENG. Perdeu o pai, foi acusado de roubo e nunca desistiu. Balde a balde, está a construir a sua casa.

Por Martilésia da Florência José Sumbane6 min de leitura
Foto: Malik Reginaldo Muiuane

Mário Américo MulaFaculdade de Engenharia da UEM, MaputoLava carros há mais de 20 anos e, com esse dinheiro, está a construir a sua casa

Já passaste pela Faculdade de Engenharia da UEM? Então já viste o Mário. Talvez até lhe tenhas deixado o carro. Mas sabes como ele se chama?

Chama-se Mário Américo Mula. Tem uma deficiência numa das mãos. E há mais de vinte anos que lava, com essas mãos, os carros de quem passa pela FENG.

Os engenheiros passam. O Mário fica.

Esta é a história dele, contada pelo próprio numa conversa com a Martilesia Sumbane.

20+anos a lavar carros na FENG
2003o ano em que perdeu o pai
15 mila acusação que nunca esqueceu

Antes dos carros, o pão com badjia

A vida do Mário nunca coube num só trabalho. Além dos carros, é vendedor, e continua a sê-lo. Compra pão, prepara badjias e refrescos, e vende tudo a partir de casa.

Viveu no bairro Luís Cabral. Hoje vive na Costa do Sol. Entre um lugar e o outro, há uma vida inteira de trabalho e de baldes de água.

Foi o pai que o trouxe

O pai do Mário trabalhava na UEM. Primeiro no campus, onde o Mário já lavava carros. Depois, o pai passou para o Departamento de Engenharia Electrotécnica, na Faculdade de Engenharia.

E o Mário foi atrás dele. Não por causa dos clientes, nem por causa do dinheiro.

"Mudei-me para a Engenharia para ficar perto do meu pai."

Mário Américo Mula

Em 2003, o pai morreu.

O Mário podia ter ido embora. Aquele lugar era, afinal, o lugar do pai. Mas ficou. Passaram mais de vinte anos, e ele continua ali, no mesmo sítio para onde um dia foi só para estar ao lado dele.

Um lugar que já tinha dono

Quando chegou à faculdade, já lá estava um senhor chamado Mabunda, que lavava os carros. Para o Mabunda, aquele era o seu lugar, os carros eram dele, e o Mário não era bem-vindo.

O Mário não discutiu.

"Eu disse-lhe que só queria ajudar."

Mário Américo Mula

Com o tempo, o Mabunda deixou de trabalhar, e o Mário passou a lavar os carros por sua conta.

Começar sem nada

Não havia dinheiro para os materiais. Nem para o sabão. Quem lhe valeu foi um arquitecto da faculdade, que de vez em quando lhe comprava o sabão para ele poder trabalhar.

Houve até a ideia de lhe arranjarem um espaço próprio para lavar carros. Nunca avançou. O Mário continuou ao ar livre, com o que tinha.

"De onde vens? Quem te deixou trabalhar aqui?"

O mais difícil não foi o sabão. Foram as pessoas.

No início, muitos clientes desconfiavam dele. Perguntavam de onde vinha, quem o autorizava a estar ali. Para que o deixassem lavar um carro, era preciso chamar o pai, que todos conheciam.

Imagina o que é isto: ter de provar, carro a carro, que se é digno de confiança. E fazê-lo com uma deficiência numa das mãos.

O Mário fez. Com paciência. Ano após ano.

"Saber lidar com as pessoas foi uma das maiores lições que aprendi aqui."

Mário Américo Mula

Balde a balde, pedra a pedra

Quando é que percebeu que aquele trabalho valia a pena? A resposta dele não fala de dinheiro na mão. Fala de paredes.

"Foi quando comecei a construir a minha casa."

Mário Américo Mula

Cada carro lavado está a virar uma pedra. Cada manhã ao sol, cada balde carregado, cada cliente que um dia desconfiou dele, tudo isso está a virar paredes, numa casa que é dele e que vai subindo.

E o Mário faz questão de dizer de onde vem esse dinheiro.

"O dinheiro deste trabalho tem de ser limpo. Ganho com honestidade e com a cabeça no lugar."

Mário Américo Mula

O dia em que foi acusado de ter roubado dinheiro

Há um dia que o Mário nunca esqueceu.

Lavou um carro, entregou-o ao dono e foi para casa. O cliente tinha pedido para lavar só a parte de fora, e o Mário nem chegou a tocar no interior.

Ao fim da tarde, o telefone tocou. Era o dono do carro, furioso. Faltavam 15 mil no carro, e ele acusava o Mário. Disse que iam à polícia.

Pensa no peso daquela noite. Um homem que passou anos a conquistar a confiança de cada cliente, de repente acusado de ter roubado dinheiro de um carro em que nem tinha entrado, com a ameaça da polícia, à espera de que amanhecesse.

O Mário não gritou. Não fugiu.

"Respondi com calma que só podíamos tratar do assunto na manhã seguinte."

Mário Américo Mula

Na manhã seguinte, voltou à faculdade. Voltou ao mesmo lugar onde o tinham acusado. E antes que a questão fosse mais longe, o dono do carro encontrou o dinheiro. Estava no sítio onde ele próprio o tinha deixado.

Pediu desculpa.

"Trabalhar com as coisas dos outros pede responsabilidade, calma e fé. As dificuldades aparecem sem aviso."

Mário Américo Mula

Hoje, o mesmo lugar

O movimento já não é o que era. Há menos clientes do que antes, e as dificuldades continuam.

Mas o Mário continua lá. Habituou-se aos dias bons e aos dias fracos. Aprendeu a aceitar os dois sem desistir de nenhum.

Viu passar directores. Viu passar turmas inteiras de estudantes que hoje são engenheiros. Viu partir o pai. Ele ficou.

O que diria ao Mário do primeiro dia

Perguntámos-lhe o que diria a si mesmo, se pudesse voltar ao primeiro dia, ao homem com um balde que ninguém queria deixar trabalhar. A resposta foi curta:

"Continue firme. Tenha fé. Um dia isto vai mudar."

Mário Américo Mula

E explicou porquê:

"Quem quer mudar de vida tem de passar por certas dificuldades antes de chegar ao outro lado."

Mário Américo Mula

O Mário ainda não chegou ao fim do caminho. Mas a casa está a subir, pedra a pedra, levantada com as próprias mãos.

O que fica

  • Começar pequeno não é começar menos. Um balde, um pano e muita vontade já são um negócio.
  • Nenhuma limitação decide o que uma pessoa consegue construir. Com uma deficiência numa das mãos, o Mário sustenta a família e está a levantar a sua casa.
  • O dinheiro honesto constrói casas que ficam de pé. Cada carro lavado está a tornar-se uma pedra.
  • A confiança leva anos a construir. Primeiro duvidaram dele. Hoje é uma cara conhecida da faculdade.
  • A calma e a verdade falam por si. Perante uma acusação injusta, o Mário esperou pela manhã, e a verdade apareceu.
  • Quem não desiste, fica. Passaram directores, estudantes e engenheiros. O Mário continuou no seu lugar.

Da próxima vez que passares pela FENG e vires um homem com um balde junto aos carros, para um segundo. Cumprimenta-o pelo nome. Chama-se Mário.

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