Aos 25 anos devia 15 milhões. Hoje tem uma empresa com mais de 80 colaboradores.
Feliciano Sapatinha vendia petiscos aos 10 anos, caiu com 15 milhões de dívida e reconstruiu tudo. Fundou a Rápido Rápido, com escritórios em 4 países e mais de 80 colaboradores.

Feliciano Sapatinha, 31 anosMoçambiqueFundou a Rápido Rápido, empresa de envios com escritórios na Africa do Sul, China, no Dubai e em Portugal2022
O Feliciano Sapatinha nunca sonhou ser empresário. Queria ser professor de Contabilidade num instituto da sua província. A vida decidiu de outra forma, e hoje, aos 31 anos, tem 21 de negócio e uma empresa de envios com mais de 80 colaboradores.
Pelo caminho, perdeu o pai, viu a mãe adoecer, ficou com uma dívida de 15 milhões de meticais e voltou a levantar-se. Esta é a história dele, a partir de um depoimento gravado em áudio e editado para leitura.
O rapaz dos petiscos
Nasceu a 1 de janeiro de 1995, em Lichinga, no Niassa. Aos 10 anos já tinha uma ocupação de fim de semana: o bar tradicional do pai, onde havia sempre um canto reservado aos petiscos. Nas férias, o pai entregava-lhe esse espaço e ele fazia carapau, carne de cabrito e espetadas, e vendia.
O pai tinha também uma cantina numa escola. Aos sábados e domingos, o pequeno Feliciano fazia bolinhos para vender ali. Parte do lucro ficava com ele e, quando sobrava produto, saía à rua, pelos mercados.

"Aos 12 anos, já era muito claro para mim que tinha sempre de fazer alguma coisa para ter dinheiro."
Mas o dinheiro era só uma reserva no bolso. O sonho era a escola. Foi sempre aluno de destaque, estudou Contabilidade nos níveis básico, médio e superior e imaginava-se a ensinar a disciplina.
Sozinho aos 15
Aos 15 anos foi admitido no Instituto Médio, em Nampula, e começou a viver sozinho. Passados seis a oito meses, conseguiu entrar no centro internato, e foi aí que voltou ao fogão. Fazia gulabos, os bolinhos de que todos gostavam, e vendia-os no instituto. Durante um ou dois anos foi assim.
Do negócio de Lichinga não abriu mão. O pai exigia que passasse por dispensa em todas as cadeiras, todos os anos, para ganhar tempo: a partir do primeiro dia de férias, queria-o de volta aos petiscos, "o negócio que me sustentava".
"Naquele período, não tinha claro que queria fazer negócio. Mas tinha claro que fazia negócio para viver."
Maputo e a cócega do negócio
Em Maputo, começou por frequentar outro curso durante um ano. Por gosto, anulou a matrícula e entrou na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), na Faculdade de Economia. Estudava com seriedade, mas, diz, "aquela veia de negócio sempre me dava uma cócega".
No primeiro ano voltou aos gulabos e vendeu-os aos colegas. Com isso pagava a renda. Depois mudou de ramo: abriu uma pequena loja em Lichinga, da qual lhe roubaram toda a mercadoria. Ficou, nas suas palavras, "muito para baixo".
Com as reservas que entretanto criara, abriu o Sapatinha Fresco, um mini-supermercado de frescos. A procura cresceu tanto que passou a viajar até Komatipoort, na África do Sul, para se abastecer e enviar para Lichinga produtos que lá ainda não existiam. Vendia ainda sapatos em Maputo e mandava vir produtos de Lichinga para vender na UEM. Comprou carro para a mãe e outro para si. E nunca largou a escola.

O ano em que tudo mudou
Em 2015, no primeiro semestre na UEM, morreu-lhe o pai. "Foi a coisa mais determinante que me fez começar a mudar de ideias, de sonhos, e começar a ter dinheiro." Tornou-se responsável pela família e prometeu a si mesmo que nunca deixaria faltar nada, "sobretudo dinheiro".
Foi então que pegou no negócio "com toda a força". Já não era uma reserva no bolso: era a sua fonte de sobrevivência.
Dois anos depois, a mãe adoeceu gravemente. O tratamento fazia-se em Joanesburgo e ele acompanhava-a sempre, interrompendo as aulas. Parte da conta era paga pelo Estado; a outra saía do seu bolso, "por cada negócio que eu fazia". Durante dois ou três anos dividiu-se entre Joanesburgo e Maputo, entre a escola e o negócio. "Foi um período muito duro", resume.
Em todo este tempo, pagou os estudos dos quatro irmãos. Hoje, dois já são licenciados, um está na universidade e outro preferiu seguir por outros caminhos.
Graduou-se na UEM a 31 de maio de 2019, no dia do aniversário da mãe, que ainda estava em recuperação e pôde vê-lo receber o diploma. Foi premiado como melhor estudante do ano no curso de Contabilidade e Finanças.

O primeiro grande passo
Na mesma altura conseguira um crédito de cerca de 7 milhões de meticais, num banco, para abrir uma padaria. Foi o seu primeiro grande empreendimento, em Lichinga. Só nas obras gastou mais de 3 milhões, e o conjunto ficou avaliado em mais de 10 milhões. Tinha 24 anos. Foi, conta, o primeiro moçambicano a ter uma padaria daquele tipo na zona Norte do país.
Já tinha também bottle stores, abertas durante os estudos, e um supermercado. Entre tudo, empregava 80 a 90 pessoas. Chegaram convites para ficar na faculdade como assistente ou monitor, e emprego em Maputo não faltaria a quem se forma em destaque. "Mas eu já não tinha volta, porque naquela altura já fazia muito dinheiro."
A queda
Veio a Covid-19 e, com ela, a crise das lojas de bebidas: as bottle stores fecharam todas. Os produtos do supermercado e da padaria ficaram parados e passaram do prazo. Abriu um restaurante para fugir um pouco à crise, mas a dívida acumulou-se: mais de 15 milhões de meticais, aos 25 ou 26 anos. O caso chegou aos tribunais. "Fiquei muito abaixo."
"Para me levantar, a única coisa que tive foi tentar ser honesto com todas as coisas que devia."
Dizer que estava mal, que estava a cair, que estava quebrado, mas que se comprometia a pagar tudo. "Parte dessas dívidas continuo a pagar até hoje."
Nampula, o recomeço
No meio de tudo isto, abriu também uma padaria em Nampula, e foi ela que o levantou. Teve ajuda: uma senhora da cidade arrendou-lhe o espaço, depois de alguém que a conhecia falar com ela. "A minha recuperação começou ali."
Em um ano, diz, tornou-se a maior padaria de Nampula em produção de pão. Manteve a de Lichinga e foi começando a pagar as dívidas.
Rápido Rápido
Faltava uma ambição: algo nacional. Pensou num negócio de envios, e a ideia nasceu de uma dificuldade sua: vivia em Maputo e não conseguia mandar encomendas às pessoas. "Vou criar a Rápido Rápido para ajudar as pessoas a mandar encomendas", decidiu, das províncias para Maputo e vice-versa.

Abriu com cerca de 14 funcionários. Em menos de um ano, saíram todos, menos o guarda. A empresa não era sustentável: não pagava salários nem cumpria a renda. "Aí mesmo é que tivemos de nos reinventar."
Abriram-se novos mercados, entre eles o sul-africano, e a Rápido Rápido tornou-se, segundo ele, a empresa de maior destaque no país nos envios da África do Sul para todas as províncias, a primeira e única, afirma, com escritórios físicos para o fazer.

Tudo começou sem escritório nenhum nas províncias. Viajava de chapa, conhecia pessoas, encontrava motoristas de mota e fazia contratos com eles para levarem as encomendas. Hoje, a empresa tem escritórios na China, Dubai e em Portugal, está a expandir-se em Maputo e, anuncia, "em breve vem o nosso aplicativo".

Sem costas quentes
Tem 31 anos e 21 de negócio. "Desisti do meu sonho de ser professor com dor, mas sinto que hoje estou no caminho que aprendi a gostar." Mantém a padaria, tem agora um aviário e uma fábrica a caminho. Acredita que, em breve, a mentoria será o seu próximo capítulo: "Tenho muito a ensinar."

E tem a certeza de uma coisa: que se pode fazer negócio sem influências, apenas com ideias. "Venho de um bairro muito pequeno em Lichinga e hoje sou proprietário de uma empresa nacional e internacional."
Descreve-se como "o gajo sem fofinhices", que chegou onde chegou por causa do trabalho.
"A única forma de sair do sofrimento de Moçambique é trabalhando. As pessoas certas são os teus clientes. E nenhum cliente consegues só pelas costas quentes. Tens de mostrar trabalho."
O que fica
A história do Feliciano tem três ideias que servem a qualquer pessoa que queira começar:
- Começa pequeno e cedo. Petiscos, -bolinhos e gulabos foram a escola de negócio dele muito antes de ter uma empresa.
- Cair não é o fim, se fores honesto. Quando perdeu tudo, não fugiu das dívidas: assumiu-as e continua a pagá-las.
- Mostra trabalho. Os clientes certos não vêm por influência. Vêm pelo que consegues entregar.
E ainda há mais para contar. Como ele próprio diz: "Para me conhecer é preciso uma vida inteira."
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