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Disseram-lhe que era impossível estudar Engenharia e ter um negócio. Ela fez os dois.

Adelina Macaringue, 20 anos, estuda Engenharia Civil na UEM e trança cabelo para pagar as contas. Começou com um secador e o dinheiro do chapa. Hoje tem a Adelina Braids.

Por Martilésia da Florência José Sumbane9 min de leitura
Foto: Malik Reginaldo Muiuane

Adelina Macaringue, 20 anosFaculdade de Engenharia da UEM, MaputoFundou a Adelina Braids, salão de tranças ao domicílio

Já ficaste sem dinheiro para o chapa? A Adelina também. E foi com esse dinheiro, o da mãe, para ir à escola, que comprou o secador que mudou tudo.

Chama-se Adelina Macaringue. Tem 20 anos, estuda Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia da UEM e trança cabelo para pagar as contas. Começou com um secador de 400 meticais e dois pentes. Hoje sonha com a primeira rede de cabeleireiras ao domicílio de Moçambique.

Esta é a história dela, contada por ela.

"Se eu não me focar, não me disciplinar, não perder noites pelo meu sonho, mais cedo ou mais tarde farei isso pelo sonho de alguém. Eu não quero viver o sonho de alguém, quero viver o meu."

Adelina Macaringue
400 MTo primeiro secador
60 MTlavar e esticar, o primeiro serviço
20anos, e já tem a Adelina Braids

De Maputo para Inhambane

Nasci em Maputo, mas fui crescer em Inhambane, porque os meus pais arranjaram emprego lá.

A minha infância foi muito tranquila, sempre com a minha mãe e o meu pai. Mais tarde, os meus pais separaram-se. Eu tinha sete ou oito anos, já não me recordo bem. O meu pai saiu de casa e passei a viver só com a minha mãe. Começámos a enfrentar algumas dificuldades financeiras, mas nada que não fosse possível resolver.

A minha juventude foi muito boa, e tive a bênção de conhecer Jesus. Foi o meu irmão que nos levou a conhecê-Lo de verdade.

Tranças por diversão

Aprendi a trançar aos 12 anos. Fazia tranças por diversão, por hobby. Só trançava vizinhos e pessoas cá de casa. Não era muito profissional, eram tranças normais, e fui aperfeiçoando a cada ano.

O primeiro dinheiro chegou aos 13 anos, quando trancei uma tia e ela me pagou. Dei esse dinheiro à minha mãe, que o repartiu com a minha avó, como agradecimento.

"Honrei a minha mãe com aquele dinheiro."

Adelina Macaringue

O dinheiro de chapa

Em 2025, no segundo ano da faculdade, comecei a enfrentar dificuldades financeiras. O meu pai dava-me mesada, minha mãe também me dava mesada, mas não chegava para o mês inteiro. E a mesada da universidade atrasava meses. Era complicado ir à faculdade.

O dinheiro do chapa era a minha necessidade.

Comecei a procurar uma fonte de renda para não incomodar muito os meus pais. Foi aí que vi que as tranças podiam ser essa fonte.

Um secador de 400 meticais

Comecei a trançar aos 13 anos, mas a empreender aos 18. Nessa altura, só tinha um secador, dois pentes e um condicionador.

"Comecei com um secador de 400 meticais. Tirei dinheiro da minha mãe, do dinheiro que ela me deu para subir chapa para a faculdade."

Adelina Macaringue

Depois do secador vieram o shampoo, o hidratante capilar e os dois pentes. Comecei a lavar o cabelo das pessoas na residência universitária onde vivo, a R4. Partilhava fotos e promovia tratamento e lavagem capilar. Lavar e esticar custava 60 meticais.

Foi assim que comecei a resolver o problema do dinheiro do chapa.

A mãe, com medo, mas sempre ao lado

Quem me apoiou foi a minha mãe. Apoiava, mas com receio, a pensar: "meu Deus, minha filha, não vai estudar bem". Mas apoiou sempre. Foi ela que me deu o dinheiro para comprar os materiais. Os meus irmãos também sempre me apoiaram.

Nem todos pensavam assim. O meu tio não aconselhou muito, porque disse que isto me ia roubar tempo. O meu pai mostrou algum desconforto. Hoje está tudo tranquilo.

O que dói

O mais difícil, nos primeiros meses, era conciliar a escola com o trabalho. Havia quem me procurasse na véspera de uma prova ou de um teste. Como estava a começar, ainda era lenta e não tinha muita prática.

E houve uma coisa que doeu.

"Quando eu trançava de borla, vinham. Quando comecei a ganhar dinheiro com isso, já não vinham, pagavam a outros profissionais."

Adelina Macaringue

Abrandar, sim. Desistir, nunca

Nunca pensei em acabar com tudo isto. Mas houve um momento em que precisei de abrandar, porque o trabalho me estava a roubar muita concentração. Estava mais focada no dinheiro do que em trabalhar.

Houve alturas em que parei por causa da escola, ou porque os clientes não vinham. Mas sempre foi o meu sonho empreender, e sempre amei a área dos cabelos. O que pode acontecer é eu procurar pessoas para me ajudarem, contratar, arranjar um jeito de isto funcionar.

Mas desistir, não.

As mãos e a fé

Não sei exatamente qual foi o momento em que percebi que podia dar certo.

"Eu olhava para as minhas mãos e via que tinha talento. E via que as pessoas procuram talento."

Adelina Macaringue

Se eu tenho talento, e quero, então posso. Também creio muito em Deus. Se Ele colocou algo nas minhas mãos e colocou este sonho dentro de mim, é porque sabe que eu vou conseguir. A Palavra diz que Deus é fiel para fazer infinitamente mais do que pedimos ou imaginamos (Efésios 3:20), e eu sei que nada é impossível para quem crê.

A virada de chave: a Adelina Braids

A primeira grande conquista foi abrir o meu salão ao domicílio e as minhas contas oficiais na internet. Foi aí que os meus olhos se abriram.

Tive a ideia de criar uma rede de cabeleireiras. Eu procuro cabeleireiras, elas fazem o trabalho do dia e eu pago-lhes pelo trabalho que fazem. Ainda não é tão abrangente, mas sei que é uma visão que vai frutificar muito.

Não foi uma conquista material. Ao longo do tempo fui conquistando a minha mala de materiais e mais produtos. Mas a conquista principal foi a Adelina Braids. Foi quando deixei de me ver só como a Adelina que trança e passei a ver uma empresa que gera um sistema de cabeleireiras.

Constância

Parei, voltei, continuei, lutei, lutei, lutei até agora.

Muita gente me disse que tinha de estudar somente, que era impossível conciliar negócio com faculdade, sobretudo em Engenharia Civil, onde praticamente se passa o dia inteiro na faculdade. Mas eu disse: este é o meu sonho, eu vou fazer acontecer.

Hoje já tenho uma empresa. Ainda não está oficializada nem bem estruturada, mas para mim a constância vale muito mais do que grandes conquistas de uma vez só, que depois paralisam.

"Primeiro começamos por uma visão, depois construímos essa visão."

Adelina Macaringue

"Ninguém virá te salvar"

O meu maior erro foi a falta de disciplina. Não organizava o meu horário, não era diligente nem intencional. Fazia só por fazer, e muitas vezes tinha de largar as tranças para conseguir estudar.

Uma mensagem que Deus colocou no meu coração mudou tudo: se eu não me focar no meu sonho, vou trabalhar pelo sonho de alguém. Mudei a forma como me organizava, como trabalhava, como agia comigo mesma.

"Desculpas não pagam contas. Elas explicam muita coisa, mas não pagam as contas."

Adelina Macaringue

Se era para perder noites, perdia noites. Se era para perder dias, perdia dias. E percebi uma coisa:

"Ninguém virá te salvar. Vira-te."

Adelina Macaringue

Se eu quero viver o meu sonho, tenho de me levantar e construí-lo. Não vão vir o meu pai, a minha mãe ou outras pessoas resolver o meu problema.

O que mudou, e o que ainda custa

Mudou a minha mentalidade. Percebi que o mercado de negócios não é tão simples como parece. Mudou a minha disciplina, a minha postura e a forma como olho para os empreendedores. Já não mimo a Adelina. O trabalho precisa de ser feito, e ponto final.

O que ainda custa é montar um sistema que funcione, comunicar com as pessoas e organizá-las. E enfrentar o medo.

"Não tenho medo de falhar, mas às vezes dá um frio na barriga: o que as pessoas vão dizer?"

Adelina Macaringue

Ainda sou nova, e muita gente olha para as limitações. Sei que vou superar. O meu desafio agora é a constância, todos os dias.

À Adelina do primeiro dia

Se pudesse voltar ao primeiro dia, diria: seja feliz. Aproveita cada momento, cada minuto. E não te sobrecarregues tanto, porque naquele tempo eu sobrecarregava-me muito com coisas que não eram para a minha idade.

"Seja uma criança leve."

Adelina Macaringue

E diria o mais importante: seja amiga do Espírito Santo, ainda nova.

Sem costas quentes

Quero que saibam que eu não comecei grande. Não comecei com ajuda milagrosa nem com muitas coisas. Comecei de baixo, sem nada.

"Não precisamos de costas quentes. Podemos ser as nossas próprias costas quentes."

Adelina Macaringue

Para mim, Deus é a minha principal costa quente. Em todos os desafios, o que me fez superá-los foi permanecer em Cristo. É possível servir a Deus e ter sucesso ao mesmo tempo. Pode levar mais tempo, mas o sucesso é certeiro.

De cada trabalho, separava o dízimo. Se o trabalho me rendesse 100 meticais, guardava 10. Se rendesse 250, guardava 25. E sempre dei, sem reservas. Tudo o que conquistei foi Deus que me deu.

O salão que vai até ti

O meu objetivo é criar o primeiro sistema de cabeleireiras ao domicílio de Moçambique. Adelina Braids: o salão que vai até si. Uma rede de cabeleireiras a nível nacional e internacional.

"Começa-se de pouco e chegamos ao mundo. Primeiro começamos com um bloco até que se constrói uma mansão."

Adelina Macaringue

O que fica

  • Começar pequeno não é começar menos. Um secador de 400 meticais foi a primeira pedra de uma empresa.
  • Uma necessidade real pode dar origem a um negócio. O problema era o dinheiro de chapa, e a solução estava nas mãos dela.
  • Constância vale mais do que uma grande conquista isolada. Parar, voltar e continuar também é avançar.
  • Desculpas não pagam contas. A virada começou quando deixou de se justificar e passou a agir.
  • Quem não trabalha pelo seu sonho acaba a trabalhar pelo sonho de outra pessoa. Foi esta ideia que a fez mudar.
  • Não é preciso ter costas quentes. Podemos ser as nossas próprias.
  • Quem começa sozinha também pode formar equipa. A Adelina deixou de ser só trançadeira e passou a criar trabalho para outras.

Da próxima vez que te faltar o dinheiro de chapa, lembra-te da Adelina. Às vezes, o primeiro passo cabe num secador de 400 meticais.

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